A montagem foi feita em 2003 através do projeto sócio-cultural “Expressividade Cênica” do Festival Internacional de Londrina (FILO). Baseada em um conto do livro Cidades Invisíveis do escritor italiano Ítalo Calvino, a peça foi adaptada e escrita em grande parte por Sebastião Narciso. A peça retrata a imagem de quatro cidades em que os habitantes descrevem as peculiaridades e os sentimentos de cada povo. Em cena os atores são transportados para as cidades de Bauci, representada pelo fogo; Valdrada, que está sob o signo da terra; Filide, aos eflúvios da água; e Zenrude, que se eleva como o ar. “E como se cada um dos personagens fosse prefeito de sua cidade, querendo fazer o melhor por ela, percebendo aos poucos, que não conseguirá nada sozinho” afirma o diretor Paulo Braz. Tanto o texto de ítalo Calvino, como o da peça trilham pelo surrealismo, despertando reflexões. Já os personagens caminham pelo onírico, seguindo os traçados de tapete no palco. O tema é a própria indagação dos atores de como a cidade os vê. Trata-se da relação entre aparência e essência. Na época atual, em que a aparência ganha cada vez mais importância na vida das pessoas, os atores destacam a importância daquilo que está além dos olhos. A utilização de espelhos em cena lembra a idolatria pela própria imagem da personagem da mitologia grega. Espelhos dispostos no palco refletem a platéia e os quatro atores, sendo três pessoas com deficiência visual. O elenco é formado por Flávio Cordeiro da Silva, Luzia Tatiane Quadros, Sebastião Narciso e Paulo Braz (ator e diretor), juntamente com Alessandro Antônio da Silva co-diretor.
No ano de 2010 Foi montada a peça teatral Olhares Guardados que estreou no FILO – Festival Internacional de Londrina, sendo dirigida por Paulo Braz, ator, diretor teatral, cenógrafo e produtor cultural – sinaliza que toda arte passa pelos cinco sentidos – visão, audição, olfato, paladar e tato.
“Quando uma pessoa adquire uma deficiência os outros sentidos são mais requisitados e, automaticamente, desenvolvidos permitindo que o deficiente encontre novos meios de entender, compreender e se desenvolver na sociedade buscando a inclusão social, cultural, artística e educacional”, considera Braz. Ele admite que através dessa ação “estamos buscando meios para que o cego desenvolva outras potencialidades”.
O projeto conta com apoio da Casa de Cultura da UEL, Espaço das Artes do Festival Internacional de Londrina e Associação dos Amigos da Educação e Cultura do Norte do Paraná (AMEM).
Toda preparação dos atores – explica o diretor Paulo Braz – “foi feita em um tapete (passarelas de borracha de 20 centímetros de espessura), onde os atores caminharão descalços. Assim ficou mais fácil para que eles se locomovessem espaço cênico com naturalidade e agilidade”, acrescenta. Segundo ele, todos os objetos de cena serão trabalhados com tato. Integrarão uma partitura cênica que, juntamente, com os textos serão definidas as ações adequadas ficando assim estabelecidas as marcações de cenas definitivas com auxílio também da sonoplastia, iluminação e figurinos, especialmente, pesquisados e elaborados para esta função.
O espetáculo prevê também um contato direto com o público em geral, utilizando o corpo, voz, expressão facial e corporal como veículos de expressão cênica.
“Além disso, capacitará o ator cego para a comunicação com a platéia, tendo como tema principal a questão do olhar na sociedade contemporânea globalizada”, completa o diretor Paulo Braz.
O Projeto Expressividade Cênica para Portadores de Deficiência Visual realizou sua primeira ação em 2003, com a montagem As Cidades e os Olhos, que estreou no FILO, foi encenado também em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, nas edições do Festival de Artes sem Barreiras. Paulo Braz coordenou e dirigiu o mesmo espetáculo no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
A trajetória de cada um dos atores, dois estreantes, é um verdadeiro exemplo de superação e de vida. Apesar das dificuldades, eles foram buscar alternativas para a inclusão: todos passaram pelo Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
Os atores
Tatiane Quadros, 24 anos, cursando o último ano do Ensino Médio, no Colégio Estadual Dario Veloso, nasceu com glaucoma congênito. Mas já contabiliza muitas horas de palco: ela faz parte do Projeto Expressividade Cênica para Pessoas com Deficiência Visual desde o início. Já atuou no espetáculo As Cidades e os Olhos, apresentando-se em todo o Paraná, São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Dos 4 aos 21 anos, foi aluna do Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos, onde sempre atuou nas ações de artes cênicas da Escola e de outros grupos. Ela pretende cursar Artes Cênicas na UEL.
João Durval, 41 anos, é DJ e já atuou no Festival Internacional de Londrina. É colaborador da Rádio Universidade FM, onde apresenta o programa “Locomotiva Sonora”, que vai ao ar aos sábados, das 11 às 12 horas. Vai estrear no palco neste espetáculo. Graduado em Direito, orgulha-se de ter sido o primeiro cego a ser aprovado em vestibular da UEL, em julho de 1989.
Marcos Santos, 50 anos, nunca viu a luz do sol, mas expressa toda a luminosidade da alma na música: é vocalista – contrabaixista e tecladista. Conhecido na noite londrinense pelo seu trabalho, que já contabiliza mais de 30 anos, ele também vai estrear como ator. Como músico, já trabalhou no Cabaré do FILO, acompanhando cantores.
Flávio Cordeiro da Silva, 48 anos, aposentado, ex-micro-empresário, voltará aos palcos com esta montagem de Olhos Guardados. Pai de uma filha de 25 anos e um rapaz de 23, e um bebê de 3 mêses, ele perdeu a visão aos 26 anos, devido a um glaucoma. Hoje, se dedica também ao artesanato, fazendo trabalhos em macramé. Atua no Projeto de Expressividade Cênica para Deficientes Visuais desde o início. Participa ainda de um grupo de interpretação de textos na Associação do Deficiente Visual de Londrina, comandado pela professora Onildes Fuganti. Lá, ele já interpretou textos de Machado de Assis, Guimarães Rosa, entre outros.
Sebastião Narciso, 53 anos, escritor, casado, pais de duas filhas, de 17 e 14 anos, perdeu a visão em acidente automobilístico na juventude. Sociólogo formado pela UEL, enfrentou muitas dificuldades para aceitar a nova condição de vida. Hoje, além das artes cênicas, ele trabalha com um projeto de contação de histórias patrocinado pelo Promic, desenvolvido nas escolas londrinenses. É autor de grande parte dos textos que são utilizados na peça Olhos Guardados.
Contato Amen/FILO (0xx43) 3324-9202 ou (0xx43) 33221030 (Paulo Braz)